segunda-feira, 26 de novembro de 2012

O que aprender com novelas fenômenos de audiência

A novela não vai acabar. O argumento de que a telenovela é ultrapassada e que, com as novas tecnologias o público procura por produtos dramatúrgicos menos extensos e muito mais imediatistas sempre volta para as discussões quando o maior produto artístico do país enfrenta uma crise de audiência ou quando a crise é de ordem criativa. Neste momento o Brasil enfrenta ambas.

Ignorando as produções do SBT e da Rede Record que não servem de parâmetro por não terem tradição e, portanto, não terem público fiel, ao analisar o clássico folhetim televisivo é preciso voltar os dois olhos para a Rede Globo e o que se vê neste momento é uma crise sem precedentes. Basta notar que as três novelas atuais estão, não apenas abaixo da meta, mas cada uma delas é a pior audiência histórica em seu respectivo horário. Grave, muito grave.

Não é de hoje que as telenovelas enfrentam crises de audiência. Esse fenômeno começou a ser mais sentido no início do milênio, principalmente no horário das 7. Em seguida o problema passou a atingir também o horário das 6 e, por fim, chegou ao principal deles, às 21 Horas. Tornou-se comum para uma novela sofrer para atingir a meta de audiência (o horário das 18 Horas tem meta de 25 pontos; o das 19 Horas a meta é de 30 pontos; e às 21 Horas precisa marcar 40 pontos), tão comum que quem produz, no caso a Rede Globo, precisa deixar de enxergar como fracasso e olhar para as novelas que atingiram a meta nos últimos anos, a resposta está ali.

Vamos separar 04 obras: No horário das 18 Horas o último grande fenômeno de audiência foi Cordel Encantado, depois dela nenhuma obra chegou sequer perto da meta. Às 19 Horas, após colecionar fracassos retumbantes e algumas poucas audiências aceitáveis, o último grande furacão de audiência foi a recém-terminada Cheias de Charme. No horário das 21 Horas o que se viu foi uma coleção infinita de fracassos impressionantes, mesmo fora da meta, duas novelas se destacaram por resgatar o público: Fina Estampa e Avenida Brasil.

Veja que são 04 novelas com autores diferentes, público-alvo diferente, estilo diferente. Nada as une, então como enxergá-las como ponto inicial para a busca do novo modelo de telenovelas que agrada o público? Parece óbvio, todas elas rasgaram a receita do folhetinesco que o Brasil se acostumou e, mesmo com os mesmos ingredientes, mudou a mistura do bolo e o telespectador adorou.

Cordel Encantado contou uma história das mais tradicionais, a mocinha e o mocinho que luta contra tudo e todos para ficarem juntos. Mas mudou todo o formato, misturou Reinos que pareciam heterogêneos e construiu um pano de fundo tão diferente que os ingredientes tradicionais passaram desapercebidos. E Cheias de Charme? A trama contou outra história tradicional, três mulheres de moral ilibada e que não são capazes de tudo para subir na vida, além de mostrar que o bem sempre supera o mal. Mas a novela contou com as novas mídias, com musicalidade e brincou com a interação, o público comprou a ideia. 

Fina Estampa foi uma paródia do que se viu nas últimas novelas das 21 Horas. Viver a Vida, Insensato Coração e Passione foram acusadas de serem remendos de outras novelas dos respectivos autores. Pois Aguinaldo Silva tratou de brincar com isso, zombou de seus próprios personagens icônicos, reescreveu suas cenas tradicionais em tom de brincadeira e o público enxergou a sátira e acompanhou por meses a fio esse jogo. Avenida Brasil contou das mais velhas histórias desde que existe romance no mundo: a vingança. Mas com um pano de fundo diferente, personagens dúbios e uma mocinha nem tão mocinha assim e uma vilã inescrupulosa, mas sofrida fez com que o público se encantasse e o país parasse para acompanhar a saga de Nina.

Ninguém quer descobrir a roda, muito menos este texto. Mas parece óbvio que o público brasileiro se cansou de seguir a receita de bolo das telenovelas. E tanto a emissora quanto os autores parecem não terem percebido isso. Glória Perez segue sua tradicionalíssima receita que, aliás aprendeu com Janete Clair, e fracassa de forma retumbante com Salve Jorge. Sílvio de Abreu reescreve uma novela dos anos 80 sem mudar nada e coloca no ar uma constrangedora Guerra dos Sexos e os novatos autores das 18 Horas criam uma trama sem linguagem para TV e veem o público fugir com Lado a Lado.

As telenovelas brasileiras não estão fadadas ao fracasso e muito menos destinadas a desaparecer. O que está claro, contudo, é que o jeito de escrever precisa mudar. O modelo precisa ser rasgado, as receitas precisam serem esquecidas e os ingredientes precisam ser misturados de uma forma diferente. Cordel Encantado, Cheias de Charme, Fina Estampa e Avenida Brasil ensinam isso: não inventem um novo bolo, só mudem o jeito de prepará-lo, ainda que com os mesmos ingredientes.

A Zona de Conforto atrapalha Ratinho

Cada profissional tem sua característica e é preciso respeitá-la. Em qualquer área de uma profissão quando o gestor percebe em seu corpo de funcionários o talento de cada um e, na medida do possível, consegue adequar a realidade do cotidiano da empresa para que seu funcionário consiga desenvolver o trabalho utilizando-se seu talento, as chances de sucesso são sempre maiores. Todos os modelos de empresas com gestão de pessoas trabalham assim nos dias atuais e vem obtendo sucesso.

Falar sobre gestão de pessoas num texto sobre TV pode parecer estranho e até ranhoso, mas não é. Principalmente porque este texto tem o objetivo de tentar desmistificar um pouco o que foi dito no primeiro parágrafo, sem contudo fugir das boas práticas da coerência. Não vamos contrariar a regra de gestão de pessoas, mas mostrar que, em alguns casos, ela acaba enrijecendo um trabalho.

Carlos Massa, o Ratinho, surgiu na TV na segunda metade da década de 90. Seu jeito despojado comandando o policial 190 da Rede CNT chamou a atenção das Redes Abertas e alavancou o jornalista a um status de estrela. Rapidamente, Ratinho se transformou numa celebridade, migrando-se para a TV Record, terceira colocada em audiência na época. Afastando-se dos programas policiais, o apresentador comandou uma espécie de programa de auditório, controverso, e cheio de polêmica. 

Assombrou a mídia e a crítica ao fazer de seu programa - considerado de péssimo nível por ter brigas, palavras de baixo calão - como o mais assistido da emissora e com picos de liderança, sempre que acabava a novela das 21 Horas da Globo. Um tempo depois, o apresentador levou seu jeito e o formato de seu programa para a emissora vice-líder de audiência, o SBT. Os primeiros anos foram de retumbante sucesso, atormentando, em audiência, inclusive novelas das 21 Horas.

Muitos anos se passaram e, no SBT, Ratinho enfrentou crises. Viu sua audiência cair vertiginosamente ao longo dos anos, acompanhou a crise da emissora e acabou na geladeira. Depois, mudou de formato, de horário, e sempre fracassou. Parecia fato que seu estilo havia sido apenas um desses fenômenos televisivos com prazo de validade.

Com a reformulação da emissora para tentar brigar novamente pela vice-liderança, o apresentador voltou a seu horário de origem, 21 Horas. Atualmente é a grande sensação do horário do nobre. Evidente que seu programa não atinge aqueles números impressionantes do início da carreira, mas a realidade da audiência é outra. Fato é que, disputando 90% do tempo com a novela das nove, Ratinho vem conseguindo se manter com média próxima aos dois dígitos e, ao final da novela, atingindo picos muito próximos da liderança. É a década de 90 voltando.

A produção do Programa do Ratinho conduz o programa de um jeito semelhante ao do começo. Porém, é preciso observar que o programa está muito mais politicamente correto, principalmente porque a TV brasileira enfrenta um momento de crise de ousadia, abaixando a cabeça para a censura embutida que a Justiça vem colocando nos últimos anos. O programa não é ruim, mas está longe de ser aquele programa despojado, corajoso e polêmico de outras épocas.

O que salva, inclusive, o formato é justamente seu apresentador. E aqui chegamos ao ponto em questão. Ratinho não é um jornalista investigativo que denuncia crimes, como no início da carreira em que, de cacetete nas mãos, fazia o papel de justiceiro na TV. Ele também não é o apresentador despojado de um programa controverso, papel que desempenhou por anos. Ratinho é a soma disso tudo, ele é um comunicador nato com domínio de palco, de microfone e de câmera como poucos na TV possuem.

Como dissemos no primeiro parágrafo deste texto, uma boa empresa é aquela que consegue enxergar o talento de seu funcionário e fazer com que ele exerça seu trabalho desempenhando seu talento. O SBT sabe o quanto Ratinho é polêmico e separou um horário especial e um programa assim para ele. Mas tanto o apresentador quanto a emissora se prenderam a isso. Ratinho poderia ir muito mais longe se a emissora e ele  próprio tivessem a compreensão de que é um comunicador importante, um dos melhores do cenário atual no país. Ratinho poderia facilmente reinventar a TV brasileira como fez no fim da década de 90, bastava para isso que saísse de sua zona de conforto e ousasse um pouco mais.

sábado, 24 de novembro de 2012

Carrossel e a simplicidade de um produto mercadológico

Relutei bastante para escrever um texto sobre Carrossel neste espaço novamente. Pelo simples fato de que parece bastante complexo analisar um fenômeno de audiência na proporção da novelinha produzida pelo SBT com a assinatura de Íris Abravanel. Uma rede de televisão que há muito tempo perdeu a tradição em produzir dramaturgia alcançar números de audiência e repercussão tão expressivos é um indicativo importante, mas não tão simples para se analisar.

Parece ser ponto pacífico que, do ponto de vista dramatúrgico, o remake da produção mexicana que parou o Brasil no início da década de 90, é o pior no ar entre as principais emissoras do Brasil. Enquanto arte, a produção peca em diversos elementos e oferece uma opção pobre de entretenimento quando se avalia exclusivamente a técnica dos elementos em cena. 

Cenário, iluminação e figurino são completamente equivocados e mostram um investimento  tímido num produto que vem gerando milhões de lucro para seus produtores. O elenco deixa a desejar, embora os responsáveis pelas crianças tenham conseguido, num espaço de tempo curto, torná-las bastante carismáticas em participações em outros programas, o que acaba conquistando o público, mas verdade seja dita, praticamente ninguém do elenco parece dominar a arte da interpretação. A direção de cena que consegue tirar o foco dos problemas acima citados e manter-se exclusivamente no roteiro mostra-se um grande acerto, assim como o texto de Íris Abravanel.

Aliás, o texto da autora é o grande mérito para o sucesso de Carrossel. Ela não escreve um roteiro brilhante e está muito longe de produzir grandes reflexões ou discussões acerca das crianças do mundo moderno neste início de milênio. Íris optou por um signo diferente: a simplicidade. O texto é quase pobre, não se importa em ser óbvio e ostensivamente didático, lembrando muito as produções da TV Cultura nos anos 90 e que fizeram bastante sucesso. Todo conflito na novelinha tem a mesma estrutura: a criança é colocada numa situação, reage de uma forma - os bonzinhos da forma correta e os pequenos vilões de forma equivocada - há o momento de tensão em que tudo parece dar errado, por fim tudo dá certo e, claro, há o texto com uma lição de moral explícita.

Enquanto arte, Carrossel não é uma maravilha, está muito longe disso, aliás, conseguindo, com sorte, ser medíocre. Porém, enquanto produto mercadológico - feito para vender para um público específico - a produção mostra-se acertada. A autora e o diretor não se envergonham em não produzirem algo profundo para as crianças que vivem conflitos muito mais complexos do que há 20 anos, eles copiaram o modelo de sucesso dos anos 80 e 90 e levaram as crianças de volta para a frente da TV. Assistir Carrossel não provoca absolutamente nada nas crianças, nenhum senso de conhecimento, é puro entretenimento didático.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

A Entrega na Arte da Interpretação

A arte de interpretar é muito mais de conhecimento técnico do que propriamente de talento. Em tempos em que a internet permite que todos prestem o desserviço em opinar sobre tudo com ares de crítica, é preciso saber separar um texto com análise crítica e um simples texto opinativo, quando o autor não tem domínio técnico para construir uma narrativa com elementos teóricos do assunto.

Mas este texto não se trata disso. O enfoque é na questão da pura entrega na arte de interpretação. Atualmente podemos destacar 03 trabalhos individuais que são unânimes: Patrícia Pilar vivendo Constância na novela das 18 Horas, Lado a Lado; Glória Pires que interpreta Roberta no horário das 19 Horas, com Guerra dos Sexos e Carolina Dieckmann, a pobre e sofredora Jéssica, da novela das 21 Horas, Salve Jorge.

Patrícia Pilar voltou ao ar numa cartada arriscada. Após viver a mais inescrupulosa e completa vilã da TV Brasileira - Flora em A Favorita - a atriz surgiu novamente no papel de uma vilã, um risco, pois as comparações seriam inevitáveis. Mas o fato é que a composição de Constância é completamente oposta ao de Flora e, por isso, as comparações ficaram para trás.

Glória Pires que raramente é vista em humor na TV se destaca em Guerra dos Sexos justamente por conseguir compôr uma personagem leve, divertida, mas totalmente humana. Numa produção cheia de equívocos, inclusive de interpretações em que o elenco não sabe se caminha para o caricato ou para o naturalista, a experiente atriz acerta o tom e mostra que domina o humor tanto quanto o drama.

Já Carolina Dieckmann mostra sua versatilidade novamente. A atriz - talentosíssima - é muito criticada, e com razão, porque escorrega quase sempre em equívocos na hora de escolher suas personagens, por vezes repetitivos e que não permitem com que ela se aprofunde em seu trabalho. Como Jéssica, a atriz mostra uma nova faceta, constrói uma personagem sofrida, uma típica mocinha que enfrenta todos os percalços da vida, mas nunca esmorece. E conseguiu a simpatia graças a sua composição aprofundada.

Poderíamos citar outros acertos da atual teledramaturgia brasileira. Marjorie Estiano brilhante - e talvez até melhor do que a própria Pilar - em Lado a Lado. Bianca Bin que vem melhorando bastante na trama das 19 Horas e até a composição minimalista, mas muito bem conduzida de Cláudia Raia em mais uma vilã. Há também alguns bons trabalhos de atores, mas não falaremos deles, pois não se faz necessários.

Algum crítico conseguiria encontrar defeitos no trabalho de interpretação das atrizes citadas? É improvável. Elas realizam um trabalho bem conduzido e maduro, convencendo o telespectador de seus dramas e suas realidades. O trabalho é competente, bem construído e o resultado é um banho de talento e domínio da arte de interpretar. Merecem os parabéns.

Porém, coloque-as lado a lado com Adriana Esteves e sua Carminha em Avenida Brasil. Este texto não quer e não vai comparar trabalhos, pois entende que a novela de João Emanuel Carneiro foi um acontecimento, mas que chegou ao fim no tempo correto. Porém, ao se pensar sobre a entrega na interpretação, torna-se impossível não citar, a partir de agora em qualquer texto, o que Adriana Esteves fez ao compôr a pérfida vilã da última novela que parou o Brasil.

Nenhuma das atrizes citadas errou a mão em seus papéis atuais. Mas qualquer - repito, qualquer - trabalho que vemos na televisão brasileira no momento, não chega aos pés do que fez Adriana Esteves. Ela também mostrou domínio da arte, conhecimento técnico e elementos que todas as atrizes profissionais e com talento e disposição para estudar possuem. Mas Adriana Esteves saiu do lugar-comum, ela foi além, ela não emprestou apenas seu rosto, sua voz e sua postura para Carminha, ela emprestou sua alma, sua própria vida.

A entrega na Arte da Interpretação no nível que Esteves se expôs é tão rara - ou mais - quanto o fenômeno de repercussão que foi Avenida Brasil. Poucas vezes a TV brasileira viu uma atriz - ou mesmo um ator -disposto a se despir de todas as suas características, sejam físicas ou emocionais, e se entregarem de corpo e alma para uma personagem. A interpretação dela feria os seus músculos, era como um açoite para o seu físico, mas a atriz queria ultrapassar a linha do talento e da boa profissional e atingir novos limites na arte de interpretar.

Agora, a grande questão, é que voltamos ao momento em que temos elenco competente na TV brasileira. Temos personagens importantes, marcantes e muito bem defendidos por atores e atrizes, mas a alma, o âmago de uma personagem não temos mais. Adriana Esteves foi um furacão, infelizmente, é raro este tipo de fenômeno acontecer.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Salve Jorge tem boa receita, mas ingrediente estragado

Quando se é profissional de qualquer área sabe-se que é preciso evitar os vícios. A maturidade profissional somente chega conforme vamos trabalhando. É o tempo que provoca isso, porém, ele também traz uma série de vícios e atalhos que quase sempre precisam ser enxergados antes de se produzir novamente, a fim de que o novo trabalho não saia prejudicado.

Criar receitas e modelos pode ser uma boa saída para evitar fracassos, principalmente num universo como o da TV brasileira em que o telespectador ainda é tão tradicional. Porém, é preciso saber o momento exato de inserir cada um dos ingredientes dessa receita, caso contrário, o prato que outrora foi muito elogiado, pode acabar sendo alvo de críticas justas simplesmente porque um ingrediente foi colocado no momento equivocado.

Foi o que se viu na atual novela das 21 Horas, um ingrediente estragado. Fato é que, por si só, o que foi ao ar até agora mostra que Salve Jorge não é uma novela ruim, longe disso. Glória Perez parece ter pesquisado bastante todos os temas antes de decidir colocá-los como núcleos de sua obra, pois todas as histórias são bem completas e redondas.

Enquanto o amor inocente e excessivamente meloso do casal de protagonistas faz fãs e haters pelo Brasil, enquanto a história dos policiais em trabalho de pacificação da favela, enquanto a história da própria favela, enquanto o núcleo um tanto quanto cômico da família que disputa uma herança, enquanto todas estas histórias tem momentos agradáveis e interessantes, rouba a cena o núcleo forte e muito bem desenvolvido do tráfico de mulheres.

Este é, sem dúvida, o maior acerto da autora neste roteiro - e um dos melhores que ela já desenvolveu ao longo dos anos. A força dessa história faz com que tudo gire em torno dela. Ainda que seja um núcleo que ainda não se aproximou dos protagonistas - mas sabe-se que vai - acabou roubando a cena por ser muito mais forte, denso e interessante, do ponto de vista artístico.

Por outro lado, Glória Perez é o melhor exemplo de criadora de receitas. Desde que entrou para o time de autores das 21 Horas ela mantém um formato em seus roteiros. Sempre fazendo um paralelo entre o Brasil e um país com cultura completamente diferente, ela conseguiu atrair a atenção do telespectador com isso e formar sua marca para fazer novelas. E sempre funcionou porque sempre foi bem amarrado com o roteiro. Até agora.

Em O Clone a protagonista Jade (Giovana Antonelli) era muçulmana, ou seja, mostrar a cultura daquele povo era parte primordial do roteiro. Em América, o sonho de Sol (Débora Secco) era o de muitos brasileiros da época, deixar o Brasil e construir uma vida no exterior com oportunidades melhores. Ou seja, a história da protagonista era entrar na América e mostrar a cultura, os percalços e caminhos fazia todo sentido. Em Caminho das Índias Maya (Juliana Paes) era indiana, portanto, tal qual na primeira novela, era necessário mostrar a cultura da Índia.

E Istambul serve para que em Salve Jorge? A protagonista Morena (Nanda Costa) foi inserida no núcleo da favela, o protagonista Théo (Rodrigo Lombardi) é policial, também brasileiro. Não há a menor necessidade de se mostrar a cultura do povo de Isambul na novela. Você pode justificar que a boate de Lívia (Cláudia Raia) com as mulheres traficadas irá se alojar, como já está ocorrendo, naquele local, mas e daí? Nas 04 primeiras semanas da novela, a boate foi em Madrid, nem por isso houve necessidade de se inserir personagens espanhóis e mostrar as tradições daquele país.

Ainda que, em algum momento, as personagens que residem em Istambul acabem se interligando de alguma forma com a protagonista - o que parece improvável - não há razão de existir este núcleo. Bastava inserir as personagens no momento em que eles fossem fundamentais para fazer a história caminhar. Até o momento, o local funciona como um núcleo solto, uma espécie de merchan turístico que não tem nenhuma ligação com o restante da novela.

Glória Perez criou uma receita e seus bolos sempre deram bons resultados. Ela foi tentando manter a fórmula a cada novo trabalho e, ao menos a tentativa de inserir uma nova cultura para o telespectador brasileiro, funcionava e, sempre em algum momento, essa nova cultura virava febre. 

Em Salve Jorge a receita foi mantida, mas, ao deixar personagens secundários e sem nenhum vínculo com o núcleo principal, a história de uma nova cultura não faz o menor sentido. Soa desinteressante ouvir os bordões, ver as danças e conhecer a história de Istambul. Dessa vez, o ingrediente estava estragado e vem prejudicando toda a receita. 

domingo, 11 de novembro de 2012

Teleton funciona como entretenimento e traz reflexões

Após mais de 27 horas no ar chegou ao fim pouco antes da uma da manhã deste domingo a 16ª edição - e a comemoração de 15 anos - de uma das maiores maratonas televisivas do Brasil. Organizado pelo SBT, através de seu dono Sílvio Santos, o Teleton vem há 15 anos realizando edições com artistas de todas as emissoras no objetivo de arrecadar doações para contribuir para a AACD.

A despeito da minha opinião sobre a intencionalidade do evento - você pode ler aqui texto escrito neste espaço em 2010 - é fato que o Teleton movimenta o país todos os anos e consegue reunir uma gama gigante de personalidades da TV, sejam artistas, atores, apresentadores ou músicos. É, talvez, o programa com maior capacidade para reunir profissionais de diferentes áreas e emissoras da televisão brasileira.

Nos últimos anos, além dos equívocos que o outro texto apontou, o programa também se equivocava enquanto show. Cansativo e monótono o público perdia o interesse ao longo das horas porque não havia nada demais, eram apenas artistas entrando e saindo do palco relembrando os telefones e pedindo doação, não havia nada de entretenimento e que chamasse a atenção do telespectador.

Em 2012 foi diferente. Embora a direção do programa ainda não tenha compreendido a necessidade de olhar para trás, para os primórdios quando o Teleton promovia jogos, eventos gravados e que chamavam muito mais a atenção do público. É preciso reconhecer que houve um avanço gigante em relação aos anos anteriores. Com maior liberdade, os apresentadores puderam demonstrar carisma, personalidade e promoverem brincadeiras, transformando o evento num show de entretenimento.

Entretenimento de qualidade num sábado é raro na TV aberta brasileira e por isso é preciso elogiar o evento. Mesmo sendo esporádico, é possível observar que o público mostrou interesse no que foi ao ar. É impensável dizer que a audiência conquistada ao longo do sábado foi por conta do desejo do brasileiro em contribuir, ninguém ficar o tempo todo assistindo algo para fazer doação, se assiste é porque está gostando do que vê.

Diante da constatação que o show de entretenimento promovido pelo evento foi de qualidade - embora o pano de fundo transforme isso num show de horrores - é possível concluir algumas coisas. O ponto alto do evento tem nome: Eliana. A apresentadora que ficou por quase 6 horas comandando as atrações deu um show de empatia e carisma e foi, disparada, o que teve de melhor nesse dia. Parece claro que Eliana se transforma quando está ao vivo e precisa urgentemente que seu programa deixe de ser gravado, pois isso daria muito mais liberdade a esta ótima apresentadora.

Outra conclusão é a de que o SBT precisa mudar sua grade de sábado. Acostumada a perder religiosamente para a Rede Record na audiência deste dia, é evidente que o sábado é o calcanhar de aquiles da emissora. Mas o Teleton mostrou o que o público quer ver neste dia. E a emissora tem a faca e o queijo na mão. A faca é a constatação de que é possível promover um programa de entretenimento jovial e o queijo é quem deve comandar: Patrícia Abravanel.

A filha de Sílvio Santos deu show nos momentos em que foi ao palco e demonstrou tamanha naturalidade diante das câmeras que se torna impensável desperdiçar um talento assim. A apresentadora tem domínio de palco, sabe animar a platéia e conhece os atalhos para fazer uma boa entrevista. A naturalidade com que ela fala tudo que pensa é um charme a parte.

Se o Teleton não tem as melhores intenções, enquanto show de entretenimento ele funcionou como há muito não ocorria e, muito mais do que isso, serviu para que a cúpula do SBT possa fazer algumas observações importantes e melhorar ainda mais a grade na disputa pela audiência.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Como Aproveitar o Fim do Mundo é deliciosamente simplória

Eu sei, estou atrasado. Enquanto praticamente todos os veículos já repercutiram há tempos a estreia da nova sitcom da Rede Globo - Como Aproveitar o Fim do Mundo - este espaço o ignorou até este momento. Pura falta de tempo, mas já estamos corrigindo este equívoco, com um pouco de atraso, é bem verdade, mas é daquelas estreias em que valem a pena acompanhar, mesmo atrasado.

Com texto de Fernanda Young e Alexandre Machado voltaram ao ar após um período sabático e, sem nenhum pudor, demonstraram que estão dispostos a levar ao ar produções em que eles dominam com maestria. Depois do estrondoso sucesso que foi Os Normais no início deste milênio, a dupla repetiu a fórmula em outras séries do mesmo formato - Separação e Macho Man - mas com um sucesso bem mais moderado do que a primeira.

Agora, com Como Aproveitar o Fim do Mundo os roteiristas confessam veementemente que é este o tipo de humor que dominam e não tem qualquer pudor em repetir uma fórmula que fez e continua fazendo sucesso entre o telespectador brasileiro. O primeiro aviso para quem pretende acompanhar a série: não espere um humor refinado, não tenha expectativas acerca de sátiras profundas sobre a situação política do país ou sobre as relações humanas, não pense que verá metáforas que o fará refletir.

A sitcom que estreou na última quinta-feira recebendo público da bem sucedida A Grande Família não apresenta o mesmo humor fino e o olhar crítico que a série que a antecede. Nem é essa a proposta. O produto é claramente mercadológico e raso. Mas ser raso não é necessariamente um demérito para uma produção, desde que isso seja proposital e este é o caso. Os roteiristas não tem qualquer intenção em tentar levar ao ar algo intelectualizado, ao contrário, a proposta é de uma série leve, divertida em que o riso vem quase automaticamente.

Ninguém precisa dominar qualquer assunto para rir em Como Aproveitar o Fim do Mundo. Basta estar de bom humor e não ter um olhar muito crítico. Diminuir as expectativas é o primeiro passo para se divertir ao assistir cada uma das sequências. Ao menos na estreia, a única novidade da série foi a desenvoltura de Alline Moraes para um texto de comédia. A atriz se sobressaiu em cena e praticamente engoliu seu parceiro Danton Mello que não conseguiu o mesmo desempenho.

Se você pretende acompanhar uma série de humor que vá entrar para os anais da televisão brasileira ou tem expectativas de uma produção refinada com sátiras profundas, fuja de Como Aproveitar o Fim do Mundo. Mas se você quer apenas se divertir sem ter que pensar e refletir muito sobre o que lhe é transmitido, a série é uma ótima pedida. Vale a pena conferir.

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