segunda-feira, 26 de novembro de 2012

O que aprender com novelas fenômenos de audiência

A novela não vai acabar. O argumento de que a telenovela é ultrapassada e que, com as novas tecnologias o público procura por produtos dramatúrgicos menos extensos e muito mais imediatistas sempre volta para as discussões quando o maior produto artístico do país enfrenta uma crise de audiência ou quando a crise é de ordem criativa. Neste momento o Brasil enfrenta ambas.

Ignorando as produções do SBT e da Rede Record que não servem de parâmetro por não terem tradição e, portanto, não terem público fiel, ao analisar o clássico folhetim televisivo é preciso voltar os dois olhos para a Rede Globo e o que se vê neste momento é uma crise sem precedentes. Basta notar que as três novelas atuais estão, não apenas abaixo da meta, mas cada uma delas é a pior audiência histórica em seu respectivo horário. Grave, muito grave.

Não é de hoje que as telenovelas enfrentam crises de audiência. Esse fenômeno começou a ser mais sentido no início do milênio, principalmente no horário das 7. Em seguida o problema passou a atingir também o horário das 6 e, por fim, chegou ao principal deles, às 21 Horas. Tornou-se comum para uma novela sofrer para atingir a meta de audiência (o horário das 18 Horas tem meta de 25 pontos; o das 19 Horas a meta é de 30 pontos; e às 21 Horas precisa marcar 40 pontos), tão comum que quem produz, no caso a Rede Globo, precisa deixar de enxergar como fracasso e olhar para as novelas que atingiram a meta nos últimos anos, a resposta está ali.

Vamos separar 04 obras: No horário das 18 Horas o último grande fenômeno de audiência foi Cordel Encantado, depois dela nenhuma obra chegou sequer perto da meta. Às 19 Horas, após colecionar fracassos retumbantes e algumas poucas audiências aceitáveis, o último grande furacão de audiência foi a recém-terminada Cheias de Charme. No horário das 21 Horas o que se viu foi uma coleção infinita de fracassos impressionantes, mesmo fora da meta, duas novelas se destacaram por resgatar o público: Fina Estampa e Avenida Brasil.

Veja que são 04 novelas com autores diferentes, público-alvo diferente, estilo diferente. Nada as une, então como enxergá-las como ponto inicial para a busca do novo modelo de telenovelas que agrada o público? Parece óbvio, todas elas rasgaram a receita do folhetinesco que o Brasil se acostumou e, mesmo com os mesmos ingredientes, mudou a mistura do bolo e o telespectador adorou.

Cordel Encantado contou uma história das mais tradicionais, a mocinha e o mocinho que luta contra tudo e todos para ficarem juntos. Mas mudou todo o formato, misturou Reinos que pareciam heterogêneos e construiu um pano de fundo tão diferente que os ingredientes tradicionais passaram desapercebidos. E Cheias de Charme? A trama contou outra história tradicional, três mulheres de moral ilibada e que não são capazes de tudo para subir na vida, além de mostrar que o bem sempre supera o mal. Mas a novela contou com as novas mídias, com musicalidade e brincou com a interação, o público comprou a ideia. 

Fina Estampa foi uma paródia do que se viu nas últimas novelas das 21 Horas. Viver a Vida, Insensato Coração e Passione foram acusadas de serem remendos de outras novelas dos respectivos autores. Pois Aguinaldo Silva tratou de brincar com isso, zombou de seus próprios personagens icônicos, reescreveu suas cenas tradicionais em tom de brincadeira e o público enxergou a sátira e acompanhou por meses a fio esse jogo. Avenida Brasil contou das mais velhas histórias desde que existe romance no mundo: a vingança. Mas com um pano de fundo diferente, personagens dúbios e uma mocinha nem tão mocinha assim e uma vilã inescrupulosa, mas sofrida fez com que o público se encantasse e o país parasse para acompanhar a saga de Nina.

Ninguém quer descobrir a roda, muito menos este texto. Mas parece óbvio que o público brasileiro se cansou de seguir a receita de bolo das telenovelas. E tanto a emissora quanto os autores parecem não terem percebido isso. Glória Perez segue sua tradicionalíssima receita que, aliás aprendeu com Janete Clair, e fracassa de forma retumbante com Salve Jorge. Sílvio de Abreu reescreve uma novela dos anos 80 sem mudar nada e coloca no ar uma constrangedora Guerra dos Sexos e os novatos autores das 18 Horas criam uma trama sem linguagem para TV e veem o público fugir com Lado a Lado.

As telenovelas brasileiras não estão fadadas ao fracasso e muito menos destinadas a desaparecer. O que está claro, contudo, é que o jeito de escrever precisa mudar. O modelo precisa ser rasgado, as receitas precisam serem esquecidas e os ingredientes precisam ser misturados de uma forma diferente. Cordel Encantado, Cheias de Charme, Fina Estampa e Avenida Brasil ensinam isso: não inventem um novo bolo, só mudem o jeito de prepará-lo, ainda que com os mesmos ingredientes.

2 Quebraram tudo:

---=|£ëö j®|=--- disse...

Gostei muito do jeito que você analisou os atuais fenômenos de audiência e o modo que faz para que o leitor compre seu texto e o defenda. Muito boa sua explanação. Como uma pessoa extremamente apaixonada por televisão (não somente novelas). O mundo mudou, consequentemente a televisão tem de acompanhar esta mudança. Parabéns pelo excelente texto.

Soraia disse...

Boa critica. Eu sou portuguesa e adoro as novelas brasileiras e entendo a tua critica. Em portugal as novelas nao sao boas como as do Brasil e o publico tambem não é tao exigente.
Pois no Brasil penso que as novelas fazem parte da vossa cultura e é como se fosse o vosso patrimonio por isso a vossa exigencia. Mas se visses as novelas portuguesas virias que as do brasil sao exelentes

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