
Estratégias. Tudo o que temos ouvido falar nestas últimas semanas se resume a estratégias. SBT e Record se degladiam em busca de audiência maior e se consolidar na vice-liderança do Ibope e cada postura tomada por ambas é chamada de estratégia. Não é bem assim.
A briga entre as duas emissoras mostra uma fragilidade imensa de ambas em serem profissionais e pensar exclusivamente em seu público e não em guerra de egos como temos visto - inclusive com discussões e bate-bocas na internet que beiram o ridículo. A Rede Record chegou a acusar em determinados momentos a Rede Globo de ser líder de audiência por manipular e até monopolizar a notícia e o veículo. O que se vê, contudo, é que a emissora da família Marinho é líder absoluta de audiência pelo simples fato de respeitar seu público.
Apenas no mês de Janeiro, para se ter uma idéia, a Rede Record - segunda emissora na preferência, segundo o Ibope - modificou sua grade de programação tantas vezes que ninguém mais consegue contabilizar isso. A tarde, a noite e até de manhã foram tantas mudanças que deixa qualquer telespectador irritado e sem condições de acompanhar a programação.
Um exemplo clássico disso se dá na novela Poder Paralelo. Um dos melhores produtos de teledramaturgia dos últimos anos e a melhor novela já produzida pela emissora desde que retomou seu núcleo de telenovelas, além de ser a maior média de audiência de toda a programação da Rede, é constantemente desrespeitada. As mudanças de horário fizeram com que a trama de Lauro Cézar Muniz passeasse por praticamente toda a grade noturna. Ela já esteve as 9 da noite, 9 e meia, 10, 10 e meia e agora começa as 11, sem o menor respeito pelo público cativo.
Como se não bastasse as contantes mudanças de horário, a Record apostou - e deu resultado - em uma série americana para recuperar a audiência perdida na faixa das 9 da noite. Isso não é novidade, pois o SBT recuperou a vice-liderança no horário justamente exibindo uma série americana - Sobrenatural. Com o fim da 4ª temporada, foi necessário a substituição e entrou no ar outra série, Gossip Girl, que não deu o resultado esperado em sua estréia, muito disso graças a estratégia da concorrente que colocou no ar a série CSI, sucesso em todo mundo.
Os fãs de ambas as emissoras continuam se ofendendo e nomeando essas mudanças como estratégia. Mas o que se vê na verdade, está longe de ser estratégia. SBT e Record ao colocarem em sua grade nobre, no horário de maior share - número de televisores ligados - um produto enlatado, ou seja, uma produção de outro país, carimbam em suas marcas a incompetência de sua produção.

Um país como o Brasil, com atores e atrizes de qualidade confirmada e admirada em outros países do mundo, considerado o país das melhores novelas do mundo, com autores criativos e capacidade de criação impressionante não pode assistir de forma passiva as 2ª e 3ª maiores emissoras abrirem mão de produções próprias para aderirem a enlatados. Isso é inversão de valores.
Alguém pode dizer que apenas a Globo produz novelas de qualidade, o que é comprovadamente um ledo engano. O SBT em meados dos anos 90 tinha uma núcleo de dramaturgia impressionante e produziu obras de grande qualidade, como Éramos Seis e Sangue do Meu Sangue. A Rede Record também seguiu este caminho nesta década ao produzir novelas como Essas Mulheres e a própria Poder Paralelo.
Mesmo assim, se a direção de ambas as emissoras acreditam que o formato de telenovela está desgastado - a Record já anunciou que ao acabar Poder Paralelo ficará com apenas uma novela no ar e o SBT atualmente não tem nenhum, aguardando o início de Uma Rosa com Amor - e que a população brasileira está mais interessada no formato serial como acontece nos EUA, que não se importe, mas que faça produções próprias.
Tudo que não se pode é nos obrigar a assistir a essas duas Redes de TV abrirem mão de sua história, abrirem mão de produzir empregos, de apostar na arte brasileira, para irem pelo caminho mais fácil em busca pela audiência. Já é tempo de se profissionalizar os núcleos dramáticos e também os diretores de produção de todas as emissoras brasileiras. O que temos visto são diretores preguiçosos que preferem procurar soluções em outros países do que criar.
O horário nobre da TV brasileira não é para se colocar produtos enlatados. O povo brasileiro merece produções próprias - e de qualidade, diga-se - e os autores, atores, e todos os profissionais de TV merecem ter empregos estáveis ao invés de serem obrigados a mudar de área enquanto as produtoras americanas enriquecem à nossas custas.
Espero que a briga por um ou dois pontos no Ibope não cegue os responsáveis e que tanto o SBT quanto a Record entendam que o melhor caminho para a televisão brasileira é justamente o inverso que eles apostaram, é a produção própria.








