terça-feira, 9 de julho de 2013

Qual o público de Malhação?

Entra ano e sai ano e muitas são as novidades que a TV aberta oferece para os telespectadores. Apostas de diversos tipos que as emissoras tentam para melhorar sua audiência, sejam em novelas, programas ou séries. Na grade de programação, o que parece imutável - no que concerne a teledramaturgia - é Malhação. A novelinha teen da Rede Globo enfrentou todo tipo de crise, mas segue inabalável já entrando em sua 21ª temporada - um recorde absoluto.

Quando a trama entrou no ar, a proposta divulgada era clara: uma novela que apostasse no público teen - adolescentes e jovens - com temporadas de aproximadamente um ano e modificando todo seu elenco a partir da temporada seguinte. Por muitos anos, o produto viveu tempos áureos, levando ao ar temporadas incríveis e conseguindo produzir identificação no adolescente brasileiro, mesmo enfrentando dificuldades, como a Classificação Indicativa e o pragmatismo do telespectador.

Foram discussões importantes para o universo teen, como doenças sexualmente transmissíveis, bullying, a difícil relação entre pais e filhos, os dramas e medos do ano de Vestibular, adolescentes que precisam ser adultos e muitos outros temas de suma importância. Mesmo com todas as dificuldades que a TV aberta enfrenta para tratar temas delicados, a novelinha sempre encontrou saídas interessantes que chamavam a atenção do telespectador e davam ótimos resultados.

É evidente que em 20 temporadas completas, torna-se impossível acertar em todas e equívocos acontecem em praticamente todos os projetos longos. O problema se dá quando determinado produto se mostra desgastado e não há como enxergar uma saída viável. Este parece ser o caso de Malhação que sofre de um desgaste que impressiona.

Não se discute se vale a pena ou não manter o produto no ar, pois ele é muito importante para a emissora, pois investe em novos rostos, novos diretores e profissionais da área. Funciona como uma ótima oficina prática e isso não pode ser deixado de lado. Diversos talentos nasceram ali e isso deve ser levado em consideração numa análise mais ampla.

Ainda assim, é preciso parar e fazer uma reflexão sobre o andamento do roteiro dessa novela. Não apenas a temporada atual - que está apenas iniciando, portanto a avaliação ainda é prematura - mas as anteriores também parecem ter perdido o foco. Faz algum tempo que Malhação não consegue cumprir seu objetivo de atingir o público teen simplesmente porque seu roteiro parece não ser desenvolvido para esta faia etária. Ainda que os temas continuem sendo deste universo, as situações e, principalmente, os diálogos estão longe da realidade teen, muito longe.

Todo o trabalho de pesquisa parece ser ignorado nos últimos anos e, mesmo quando a proposta da temporada é interessante e o texto bacana, o que se vê no vídeo é um produto que não cumpre seu objetivo de chamar a atenção de adolescentes e jovens. Quem tem essa idade certamente não se sente espelhado quando assiste ao show e, provavelmente, este seja o principal motivo da queda brusca de audiência temporada após temporada.

Séries teen já conseguiram ler a alma desta faixa de público nos últimos anos. É o caso da sensacional Skins, série britânica que faz uma leitura impressionante de adolescentes, que deveria servir de espelho para qualquer produção mundial quando o assunto é jovem. É evidente que num país como o Brasil não se pode exibir algo tão ousado, mas Malhação já conseguiu fazer leituras - ainda que superficiais - dos adolescentes brasileiros, mas perdeu a mão faz tempo. É preciso encontrar o caminho ou pensar em outra proposta.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Brasil ainda engatinha quando o assunto é séries

É fato que o Brasil é um dos países - senão o maior - que melhor produz telenovelas em todo o mundo. Nossos folhetins são comprados por centenas de países e milhões de pessoas admiram o trabalho de composição deste formato com linguagem própria, indo ao ar diariamente e com toda uma estilística definida. Em compensação, enquanto o mundo avança em produções de qualidade quando o assunto é séries, o Brasil parece não conseguir deixar de engatinhar.

Os motivos são os mais variados, vai da falta de investimento até a pouca experiência. Para alguns especialistas, este cenário deve mudar nos próximos anos graças a Lei de Cota de Produção Nacional da TV fechada. A Lei obriga todos os canais de TV a cabo a levar ao ar um número de horas específicas de produção nacional e isso tem feito o mercado se movimentar, já levando ao ar alguns produtos, mesmo em 2013 quando a Lei está em momento de adequação.

É evidente que, quanto mais se produz, maiores são as chances de conseguirmos assistir séries de qualidade. Como o país ainda engatinha neste formato, é bastante lógico entender que não há como se exigir produtos muito rebuscados, mas é preciso ter senso crítico para tentar enxergar o que pode ou não ir ao ar, no momento em que se avalia determinado roteiro. A justificativa de que, como é o início, toda tentativa é válida soa muito pobre, pois é possível apostar em roteiros com um mínimo de qualidade.

Arriscar-se no drama talvez seja o mote ideal para o momento. O Brasil passou décadas investindo exclusivamente no humor - tanto na TV aberta quanto no Cinema - e conseguiu avançar. Haja visto que os últimos anos apresentaram produções interessantes neste formato, como as excelentes Louco por Elas e Pé na Cova. Essas duas são representações de que o país consegue ir além do humor fácil e simplório que fomos acostumados por muitos anos.

Mas a TV a Cabo ainda derrapa. Tanto no drama quanto na comédia, percebe-se uma clara boa vontade e intenção de acertar, mas os erros tornam-se cada vez mais evidentes conforme a grade de programação começa a ceder espaço para séries nacionais. Diante de um ou outro acerto, o que se vê é uma sucessão de erros que não demonstram apenas falta de experiência, mas o equívoco de imaginar que um produto pode sobreviver apenas com o nome de alguém envolvido.

No drama, as emissoras fechadas vem fazendo algumas tentativas válidas de se produzir algo realente interessante. É o caso de Três Terezas e Sessão de Terapia, ambas da GNT - emissora que mais tem investido até este momento - que conseguem sair do óbvio e, embora ainda cometam deslizes, demonstram estar no caminho certo. Em compensação, também há equívocos, como o caso da fraquíssima Copa Hotel que não disse a que veio ou de Contos de Edgar, uma tentativa insana com roteiro pífio.

A estreia desta segunda-feira, 08, Vai que Cola, do canal Multishow, segue este caminho, mas na comédia. Um produto que certamente exigiu algum investimento financeiro importante por parte da emissora, mas que parece não ter passado por qualquer avaliação prévia de seu roteiro antes de ir para o ar. A impressão que se teve é que todos confiaram no talento de Paulo Gustavo e não fizeram uma avaliação mais apurada do que estavam produzindo e o resultado foi catastrófico.

É impensável que, enquanto a TV aberta já consegue levar ao ar produções de humor do nível de Pé na Cova, a TV Fechada apresente uma série que regrida tanto em qualidade. Com piadas de sentido sexual, e sempre buscando a saída fácil, o roteiro foi extremamente pobre e não explorou os caminhos que a comédia deve explorar. Não houve qualquer sutileza, seja nos diálogos superficiais e caricatos, ou na interpretação de um elenco que, sobretudo, não percebeu que teatro é teatro e TV é TV. Com muita gritaria, o resultado não tinha como agradar. Embora com momentos - raros - de lucidez, a série não parece ser a luz que a teledramaturgia busca na comédia. Está longe disso.

Estamos diante de um momento fundamental para nossa teledramaturgia, pois muitas séries começarão a ser produzidas nos próximos anos. É preciso um olhar mais atento para que consigamos levar ao ar algo de real qualidade e manter a excelência que nos acostumamos com as novelas. Pelos primeiros resultados, não parece uma tarefa fácil

domingo, 7 de julho de 2013

Uma boa sinopse não é sinal de um bom produto

O primeiro passo para se saber se estamos ou não diante de um bom produto é sua sinopse. É bem verdade que o grande público não tem acesso a uma sinopse completa - seja de novela ou de série - mas ainda assim é possível arriscar-se baseado nas informações que são divulgadas sobre determinada história antes de sua estreia. Este pode ser um caminho perigoso, uma vez que nem sempre a sinopse seja um indicativo verdadeiro sobre o que entrará no ar. Ainda assim, quase sempre é simples saber se estamos ou não diante de uma boa história.

Criar uma boa história é muito difícil. Mais difícil ainda é saber desenvolvê-la com a mesma sagacidade. Quando um autor imagina toda a construção de determinada história em sua mente e resume-a em seu computador, costurando assim a sinopse, pode-se estar diante de uma ideia brilhante. Daí a conseguir desenvolver com a mesma competência, há uma enorme diferença. É surpreendente assistir uma simples história sendo contada de forma competente, mas é frustrante acompanhaá-la enquanto se perde dia após dia.

Existe uma diferença grande entre pensar na história como um todo e colocá-la em prática diariamente - ou semanalmente, no caso de séries - os obstáculos começam a aparecer somente na construção do roteiro diário e é nele que os obstáculos vão aparecendo e, com eles, os atalhos extremamente perigosos que quase sempre culminam no enrosco de um bom projeto. Nem todo autor tem a mesma competência para desenhar um roteiro diário quanto tem para criar as linhas gerais e, quando ele não se atenta a isso, cercando-se de uma equipe competente, os resultados normalmente são desastrosos.

Não basta para um bom produto apresentar histórias e situações ousadas. É preciso contá-las de forma pertinente e crível, fugindo de atalhos quase sempre prejudiciais. Insensato Coração mostrou-se uma novela problemática justamente por equívocos de desenvolvimento. Sua história - muito interessante - foi contada com freio de mão puxado dando um tom de um prólogo eterno para sua primeira metade. 100 capítulos que poderiam ser contados em 40, no máximo e isso acabou por atrapalhar o desenvolvimento saudável da vingança de Norma (Glória Pires).

Balancear o desenvolvimento de uma história não é fácil. Na atualidade quem mostra-se mais competente nisso é João Emanuel Carneiro que consegue fugir das famosas barrigas - período em que não acontece nada nas novelas - criando diversos momentos importantes em suas tramas. Desenvolver uma boa história no timing correto quase sempre resulta em sucesso, vide Avenida Brasil.

A atual novela das 21 Horas, Amor À Vida, é um prato cheio para esta análise. Estreante no horário, Walcyr Carrasco não se fez de rogado e levou para a TV diversos temas polêmicos e pertinentes. Autismo, doença terminal e um vilão gay são três dos muitos temas tratados na novela. Ao se pensar exclusivamente nos temas e no desenho geral da novela parecia claro: estávamos diante de uma grande obra televisiva.

Não é o que acontece na prática. Embora tenha ousado em criar todas essas histórias, o autor se perde ao tentar desenvolvê-las, principalmente porque oferece ao telespectador um texto raso, com situações que não são aproveitadas ao máximo e diálogos didáticos que atrapalham o ritmo da história. Com isso, um folhetim que poderia ser dos mais interessantes, torna-se apenas chato e um desperdício.

Achar o ponto correto para transformar uma boa sinopse em um bom produto não é tarefa fácil. Principalmente se pensarmos que uma novela fica no ar cerca de 07 meses, é uma tarefa hercúlea conduzir esta história diariamente. Mas se o autor se propôs a fazer isso, cabe a ele encontrar instrumentos para conseguir, ou então, o resultado não agrada.

sábado, 6 de julho de 2013

Realismo Fantástico precisa seguir lógica em sua mitologia

O Brasil sempre apostou em Realismo Fantástico para fazer sucesso em suas obras de teledramaturgia. O público brasileiro comprou a ideia e transformou em fenômenos de audiências novelas que apresentavam personagens desse estilo. De obras trashes, como Vamp, até mais sutis, como Sexo dos Anjos, o fato é que a história da teledramaturgia nacional é repleta de exemplos bem sucedidos de formatos assim e que arrebataram o grande público.

É bem verdade que nos últimos anos este formato foi deixado de lado na telenovelas nacionais. Sob o argumento que o telespectador procura tramas mais realistas, pois quer se ver espelhado no que assiste, a estilística foi mudando e o lugar-comum ganhou um espaço maior.  A última lembrança de realismo fantástico na TV brasileira talvez seja na bem-sucedida, porém abortada, série A Cura de João Emanuel Carneiro e a novela O Astro, remake adaptado por Alcides Nogueira, que culiminou com um Emmy Internacional.

Um ponto fundamental para se produzir uma história com realismo fantástico é sua mitologia. Ao contrário do que se pode pensar, criar personagens com poderes ou com características além das do ser humano, não significa necessariamente que este personagem pode fazer tudo. É preciso construir uma história lógica, ou seja, a mitologia, para que quem assiste saiba exatamente o que o personagem pode ou não pode fazer. O maior exemplo contemporâneo disso seja, talvez, a série americana Supernatural que sabe explorar muito bem os elementos sobrenaturais, mas construiu uma mitologia sólida e que o público volta e meia é convidado a lembrar-se, com sequências desde a primeira temporada. Os personagens não fazem atualmente o que, no início, não podiam fazer, é a figura mitológica que dá verossimilhança para quem vê.

Quando o produto não consegue transmitir essa verossimilhança e sua mitologia é um samba-do-crioulo-doido, tudo se desfaz. O que foi criado para atrair acaba irritando, porque o fantástico deixa de o ser e se torna frustrante e com dezenas de erros apontados. Outra série americana serve de exemplo para esta máxima, trata-se de Heroes, um produto que começou com força e cheia de elementos que chamaram a atenção e se perdeu porque não soube construir uma mitologia lógica e, mesmo quando construiu, a destruiu para tentar contar a história.

Se a justificativa do autor é a de que "é realismo fantástico" para que seu personagem possa fazer tudo, já podemos saber que se trata de uma saída preguiçosa. Esse formato só funciona se for muito bem trabalhado para que o telespectador possa comprar os absurdos - para o plano da realidade - como algo verdadeiro dentro daquele contexto, daí a importância de regras básicas muito bem delineadas.

Em Saramandaia este problema acontece. Numa sequência interessante exibida na última sexta-feira, vimos o personagem de João Gibão (Sérgio Guizé) - que prevê o futuro - tendo uma visão de que Vitória Vilar (Lília Cabral) levaria um tiro. A partir daí ele e Zélia Vilar (Leandra Leal) saem numa busca desenfreada por Vitória a fim de evitar que a visão se consuma. Perfeita a sequência que serviu para construir planos de ação para o capítulo e chamar a atenção do público.

Porém, o dom de Gibão não obedece a nenhuma regra. A mitologia é furada e funciona a bel prazer do autor, mostrando-se equivocada. No primeiro capítulo vimos que o personagem teve uma visão da cidade de Bole-Bole mudando seu nome para Saramandaia e até agora isso não aconteceu. Num capítulo desta semana, novamente ele teve uma visão, desta vez com Dona Rdonda (Vera Holtz) explodindo - a visão já havia acontecido em outra ocasião. Esta visão especificamente também poderia ser atribuída a bomba que explodiu no final do capítulo desta sexta-feira. Não importa. O fato é que, em determinado momento, a visão de Gibão indica algo que vai acontecer em instantes e em determinados momentos algo que vai acontecer sabe-se lá quando. Como o personagem sabe distinguir o que vai acontecer no momento e o que não vai?

Construir uma história de realismo fantástico sem se apoiar numa mitologia quase conservadora para evitar furos é o melhor caminho. De nada adianta impressionar o público com personagens fascinantes e mágicos se a história segue exclusivamente uma única regra: a da saída fácil e preguiçosa.

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Telespectador Brasileiro é atrasado

Produção de TV vai muito além que enxergar pequenos pontos manchados e torná-los análises fundamentais para se entender o comportamento do público. Televisão não pode - e nem deve - ser entretenimento passivo. Não se pode esperar que um meio de comunicação de massas se renda exclusivamente ao gosto do público. Em primeira análise, essa afirmação pode soar absurda, mas está longe de ser equivocada. 

O Brasil é um país atrasado em diversos segmentos - talvez por isso estamos diante de um momento histórico de protestos - mas, levando toda essa onda para a teledramaturgia, pode-se afirmar sem medo de exagero que o telespectador brasileiro é atrasado. A máxima é simples e verdadeira, ora, se o país é atrasado em praticamente tudo, evidente que seu povo é atrasado também, inclusive quando falamos de busca correta por entretenimento. A analogia perfeita neste caso se dá com uma criança que quer tudo, mas cabe aos responsáveis saber o que pode e o que não pode e ensinar esta criança. É isso que a produção de TV deveria fazer com o público: ensinar.

As grandes referências de sucesso atual na TV mundial são tipos complexos e que fogem do arquétipo do bom moço ou do pior vilão. Em Breaking Bad - série americana sucesso de crítica - o protagonista fabrica drogas. Homeland, outro sucesso da TV americana, a mocinha sofre de bipolaridade e se envolve com quem, supostamente, teria de investigar. Países desenvolvidos compreenderam, também na teledramaturgia, que ninguém é puramente bom ou mau e conseguem humanizar personagens complexos a ponto de construírem tipos inesquecíveis.

No Brasil essa tarefa parece muito mais árdua. O público brasileiro parece somente conseguir torcer para dois tipos de personagens. A mocinha que é a personificação da bondade e pureza ou para os vilões tórridos, mas com veia cômica. Muitas novelas já sofreram hecatombes de críticas ao se verificar uma tentativa de mudar este cenário. América teve sua protagonista rejeitada porque ela escolheu seu sonho de morar nos EUA a viver a história de amor proposta. Mesmo em sucessos, como Avenida Brasil, o público se incomoda. Houve - muita gente - quem criticasse o fato de Nina optar pela vingança e deixar em segundo plano seu amor por Jorginho.

A prova do atraso do público brasileiro se dá em Sangue Bom. A construção semiótica da protagonista Amora vem se mostrando complexa e rica em detalhes. Uma pessoa cheia de conflitos e que caminha o tempo todo na tênue linha entre a vilania e a bondade. A personagem é uma construção quase semântica do ser humano. Amora não é boa ou má, ela é influenciada pelo meio em que vive, como qualquer um de nós. As linhas fortes do texto competente de Maria Adelaide Amaral e Vincent Villari apresentaram uma personagem tão rica que permite a Sophie Charllote sua melhor interpretação na TV. A atriz soube construir a personagem com a fúria necessária para quem vive em meio a lobos, mas também que sabe viver intensamente aquilo que acredita. Ponto para a atriz.

Ainda assim, o público não consegue torcer pela mocinha. Segundo resultado da pesquisa que a emissora faz junto ao público - divulgada pela jornalista Patrícia Kogut - o telespectador torce por Bento, mas não consegue torcer por Amora, embora queira. Isso significa que o público não compreendeu a proposta da personagem e, consequentemente, não compreendeu a proposta da trama.

Entendo que seja muito mais fácil conquistar o telespectador criando caricaturas de representação do bem, como é o caso da mocinha de Amor à Vida, Paloma (Paolla Oliveira). Mas produtos que fogem do óbvio e buscam sutileza e profundidade produzem um resultado muito melhor, no que concerne à reflexão.

É preciso encontrar meios para que o público compreenda que a ambiguidade de Amora não é um comportamento tortuoso ou uma falha, mas é uma construção de personalidade e é justamente isso que dá todo o charme, mas não se pode abrir mão da proposta apenas para agradar. Sangue Bom é a melhor novela no ar - e uma das melhores do horário - e é preciso cuidado para não abrir mão de toda sua estrutura muito bem construída simplesmente para tentar melhorar índices de audiência.

terça-feira, 25 de junho de 2013

Saramandaia acerta ao inserir debate político

Estreia da última segunda-feira, 24, a nova novela das 23 Horas, Saramandaia - obra original de Dias Gomes e com assinatura de Ricardo Linhares neste remake - iniciou num momento tão cirúrgico para o país que, em determinados momentos, a semelhança entre ficção e realidade causaram certa estranheza em parte da audiência.

Como se sabe, o principal objetivo de uma novela é entreter, mas já debatemos inúmeras vezes a possibilidade de se criar elementos culturais e artísticos pelos olhos da teledramaturgia e, quando se consegue este objetivo, a obra em si consegue atingir um patamar elevado, pois conseguiu contribuir na formação de seu público. Embora este debate seja recorrente, ele continua de fundamental importância e, aparentemente, autores e produtores têm se preocupado cada vez mais em levar produtos de qualidade e com algum objetivo cultural.

Especificamente nesta estreia, acompanhar borbulhar político que vive o município de Bole-Bole - em que dois grupos de moradores debatem a mudança ou não do nome da cidade para Saramandaia - causou uma proximidade tão grande entre público e obra que, em determinados momentos, a novela parecia encomendada pela emissora por conta do clima de protestos que o Brasil atravessa.

Mesmo com as coincidências por trás  disso - e são apenas coincidências, a novela estava encomendada há tempos - é preciso curvar-se diante do brilho de Dias Gomes. Uma obra escrita há décadas torna-se tão atual graças ao descalabros políticos que o país vive desde aquele período até hoje. Mas é preciso também mencionar a sensibilidade do autor deste remake, Ricardo Linhares, que soube transportar toda a estilística do autor original para os problemas atuais de nosso país.

Neste primeiro capítulo já se percebeu que Saramandaia chegou para colocar o dedo na ferida. Travestida de comédia, a trama não é um simples drama, mas é um mar de críticas por todos os lados e a todos os grupos - inclusive ao próprio povo. É importante enxergar as muitas camadas de críticas que a novela faz, as mais óbvias e as mais densas - estas, através dos estranhos personagens que enxergaremos melhor ao longo da exibição e que todos possuem um caráter simbólico importante.

O momento vulcânico que o Brasil atravessa mostra-se bastante favorável a uma trama assim, que permite-se criticar a política e a sociedade brasileira sem medo de cutucar a ferida de forma profunda. Ao menos nesta estreia, Saramandaia lembrou bastante outra obra icônica - Anos Rebeldes - que tinha forte cunho político e acabou coincidindo com outro momento importante para a democracia brasileira, os cara-pintadas. 

Num momento de aparentes mudanças fundamentais para a sociedade brasileira, a TV cumpre seu papel no jornalismo, na cobertura de massa, mas aparentemente, também conseguirá marcar presença na teledramaturgia, através do timing perfeito que a Rede Globo teve  - por pura sorte, diga-se - em levar ao ar a melhor novela para este momento. E esperamos que as discussões em Bole-Bole possam levar o povo brasileiro a reflexões sobre nossas próprias discussões.

terça-feira, 18 de junho de 2013

Produção independente pode salvar a TV aberta nacional

Muito se especulou - e depois se confirmou - que a Rede Record passará, paulatinamente, a terceirizar boa parte de sua programação. É possível que programas de variedades, séries, minisséries e - talvez - até novelas sejam produzidos via produção independente. Nesta semana a especulação ganhou outra emissora: o SBT. Ainda é cedo para afirmar se a rede de Sílvio Santos também pensa em seguir este modelo, o que pode-se dizer é que este novo formato pode ser a tábua de salvação da TV aberta e representar uma ruptura importante.

Num país em que mais de 60% da publicidade com TV fica na líder de audiência - e com méritos, é preciso salientar - a concorrência precisa ser criativa se quiser apresentar para o público programas inteligentes, instigantes, que consigam atrair audiência e alcançar bons resultados comerciais - pois é exatamente disso que as Redes de televisão sobrevivem e não é possível esquecer que sem dinheiro não se produz muita coisa de qualidade.

A nova Lei da TV paga contribuiu sobremaneira para movimentar o mercado e criar novos profissionais nas mais diversas áreas. Mas mais do que isso, serviu para dar prática a uma vertente de profissionais que não a tinham: as produtoras. Pouco ou quase nada se via de produção independente na TV brasileira e, por isso, os profissionais ficavam amarrados a uma só emissora, engessados em sua criatividade e passando anos fora do ar. Agora, ao menos na TV paga, o movimento caminha para o modelo que os EUA adota com qualidade há muitas décadas. É evidente que o Brasil tem sua própria realidade e precisa adequar-se a ela, mas o modelo é bastante semelhante.

Agora, a TV aberta tem a chance de também dar este salto. Enquanto o mercado publicitário mantém seus olhos exclusivamente na Rede Globo por conta de tudo que ela representa, a concorrência tem a chance de ver seus custos reduzidos através da terceirização. Parece que, num cálculo simplório, quem vai quebrar são as produtoras, mas isso está longe de ser verdade. A lei de incentivo cultural da ANCINE não permite que produções de emissoras de TV sejam beneficiadas com investimentos financeiros, mas garante isso a produtoras independentes.

A matemática é simples: as emissoras de TV dizimam seus custos e pagam apenas pela aquisição dos programa já prontos. As produtoras terão um custo muito menor que as emissoras de TV, pois serão beneficiadas com a lei de incentivo da ANCINE. Com custos reduzidos, pode-se investir em novas áreas, em maior gama de produtos e ter resultados de audiência melhores, atraindo a atenção do mercado publicitário.

Embora as experiências de produções independentes ainda sejam traumáticas, o maior exemplo disso é o fiasco chamado Metamorphoses, levado ao ar na Rede Record, mas produzida de forma independente pela Casablanca e que teve uma audiência pífia, mas é preciso investir até que todos entendam o novo momento e as necessidades do telespectador.

Difícil prever o que pode acontecer, mas é possível acreditar que, feito um trabalho profissional e se as emissoras de TV aberta perceberem que estão diante de um importante momento e que pode significar uma ruptura fundamental para sua sobrevivência, um novo desenho poderá ser feito da televisão aberta no Brasil nos próximos 20 anos. É esperar para ver.

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