sexta-feira, 20 de julho de 2012

A construção narrativa na virada de Avenida Brasil

Uma novela é uma obra de ficção. Independente de haver nela seu universo e sua própria mitologia, é preciso que a produção, dentro de sua proposta, transmita verossimilhança. Isso é diferente de transmitir realidade. O que uma obra televisiva necessita é que, mesmo dentro de seu próprio universo, o telespectador compre a ideia de que o que está assistindo faz sentido no contexto dessa história. Sem isso, é impossível o envolvimento do público.

Em Avenida Brasil, novela das 21 Horas da Rede Globo, o autor João Emanuel Carneiro mostrou-se mestre também no domínio deste contexto. No capítulo desta quinta-feira deu início a grande virada da trama em que Carminha (Adriana Esteves) finalmente descobre que Nina e Rita (Débora Falabella) são, na verdade, a mesma pessoa.

Este era o momento mais aguardado da TV brasileira em muito tempo e, como tudo que provoca grande ansiedade, também provocou frustração em alguns. Apenas naqueles telespectadores mais desatentos e que não se deixam envolver e refletir no que estão assistindo. João Emanuel Carneiro apresentou um centésimo capítulo sólido e, principalmente, muito bem construído e contextualizado em sua proposta inicial. Quem vê a novela desde o início percebeu o cuidado do capítulo.

É bem verdade que, enquanto telespectador, nosso desejo era de que a grande virada fosse com cenas exclusivas sobre Nina e Carminha, com o embate de ambas e com o desfecho da situação mais rápido. Mas a linha de Avenida Brasil é outra, o seu conceito é diferente. Ao contrário de A Favorita, outra trama do autor, a novela atual é muito mais sólida enquanto novela e apresenta núcleos muito melhores distribuídos e com maior participação.

Ao não abandonar os núcleos, mostrando que eles são sim importante para o folhetim, o autor mostrou-se respeitoso para com as personagens que ele próprio criou e cultivou ao longo destes 100 capítulos e também para com seu público fiel que aprecia cada uma das figuras criadas. Não houve um capítulo-barriga, houve um capítulo bem construído e divinamente bem amarrado.

Deixar para o final do capítulo a sequência em que Carminha descobre a verdade é lugar-comum entre os autores. Ao mudar esta estratégia em A Favorita, quando a revelação de que Flora (Patrícia Pilar) era a assassina de Marcelo ocorreu no primeiro bloco, João Emanuel Carneiro não criou uma nova regra folhetinesca. O gancho de fim da capítulo continua sendo o grande chamariz para o próximo capítulo.

Coerência. Esta foi a palavra de ordem para o capítulo centésimo e para a virada. Quem soube compreender o contexto da história saboreou cenas excelentes protagonizadas por todo o elenco e percebeu que o clima de virada não ocorreu apenas no núcleo central, mas houve mudanças significativas em praticamente todos os núcleos. E, o fato de não ter acontecido tudo de uma vez, deixa um gostinho de quero mais para o grande embate das protagonistas. É esperar para ver.

2 Quebraram tudo:

Odmilson Silva Rodrigues disse...

O João Emanoel Carneiro é simplesmente o melhor autor na atualidade, em todas as suas quatro novelas ele coloca os momentos em que acontecem grandes viradas, grandes acontecimentos que vão mudar os rumos da trama, foi assim em A Favorita quando descobriu-se que a Flora era a verdadeira vilã, foi assim em Cobras E Lagartos várias vezes, e em Da Cor Do Pecado várias vezes.
O Silvio De Abreu que eu acredito que tenha inspirado o JEC nesse estilo Drama/Suspense/policial tem que se cuidar para se manter o Rei Do estilo na teledramaturgia Brasileira

Leonardo de Andrade disse...

Os capítulos de ontem e hoje foram incríveis. O de hoje em especial... Nossa. Foi tudo tão bem feito, tão bem cuidado. A Adriana Esteves é O monstro interpretando a Carminha; dá pra sentir de uma maneira impressionante tudo o que acontece com a personagem... e os movimentos travados de raiva, a fúria prestes a explodir, são tantos detalhes! E, caramba, a última cena de hoje... que sacada genial de marcar o início da nova fase com uma situação que lembrava gritantemente o começo da novela, da Carminha gritando, histérica, e a Nina com aquela cara de Rita toda. Foi maravilhoso. Eu tinha deixado Avenida Brasil um pouco de lado, mas todo o entusiasmo que eu tinha no primeiro capítulo quintuplicou ontem, e eu finalmente estou conseguindo enxergar sem dúvidas o brilhantismo com que JEC me conquistou em A Favorita.

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