domingo, 13 de março de 2011

E o Tempo Passou em O Rei do Gado

A primeira fase de O Rei do Gado é, indiscutivelmente, um dos momentos mais bonitos da teledramaturgia nacional.  O brilhante texto de Benedito Ruy Barbosa, aliada à direção de Luiz Fernando Carvalho, a fotografia de Walter Carvalho e o elenco impecável, criaram cenas inesquecíveis que ficarão para sempre no imaginário de quem assistiu. Mas essa primeira frase acabou e é aí que a novela realmente começa.

Assistindo a reprise pelo Canal Viva, vemos uma imensa diferença entre as fases. Não em termos técnicos ou de interpretação, mas em termos de texto. Que o ritmo narrativo de Benedito Ruy Barbosa é lento, todos sabemos. O estilo do autor é esse, tem muitos admiradores e deve ser respeitado, mas o grande problema de O Rei do Gado, é que a trama fica girando sem sair do lugar. 

O romance entre Bruno Mezenga (Antônio Fagundes) e a bóia-fria Luana (Patrícia Pillar), apesar de interessante, não segura a novela. Até porque não existem grandes empecilhos para o amor dos protagonistas. Tudo fica muito filosófico e abstrato. Os conflitos dos filhos de Mezenga, Marcos (Fábio Assunção) e Lia (Lavínia Vlasak) também não chamam atenção, já que os personagens não tem, pelo menos em um primeiro momento, empatia com o público.

A grande promessa de trama é a misteriosa Marieta (Glória Pires) que chega na fazenda do tio de Bruno, o solitário Jeremias Berdinazzi (Raul Cortez), dizendo ser sua sobrinha desaparecida e portanto, herdeira. Mais tarde, vamos descobrir que a herdeira é Luana e que Marieta, na verdade Rafaela, é uma impostora. Infelizmente, essa é uma trama que não vinga. Mesmo com o show de interpretação de Raul Cortez, Benedito Ruy Barbosa não conseguiu contar esse entrecho de forma envolvente, jogando fora o principal trunfo da novela.

Nesse jogo de histórias que não decolam, a única que realmente começa a criar interesse, é a de Léa (Silvia Pfeifer), mulher de Bruno. Cansada de ser ignorada pelo marido, Léa se envolve com o cafajeste Ralph (Oscar Magrini), abandona o rei do gado e se casa com o amante, buscando a felicidade. O problema é que Ralph só está interessado nos bois de Léa, e quando ela sai do casamento com quase nada, o “amor” do rapaz desaparece. Léa passa a conviver com a violência de Ralph que chega a agredi-la e com suas amantes, Suzane (Leila Lopes) e Marita (Luciana Vendramini).

A trama de Léa se torna tão importante, que é a partir dela que, da metade pra frente, O Rei do Gado passa a girar. O assassinato de Ralph se torna o centro da novela. Bruno, Léa, Marcos, Marita, Suzane e seu marido, Orestes (Luiz Parreiras) são suspeitos. Daí pra frente, a novela se torna uma grande história policial, conseguindo ótima audiência e todos, emissora e público, terminam felizes para sempre.

Do jeito que eu coloco a coisa, pode parecer que acho O Rei do Gado uma novela ruim. Não acho. É uma história até interessante, mas que poderia ser infinitamente melhor. Rafaela, que deveria ser uma grande vilã, movimentando as tramas, acaba relegada à fazenda, sem muito acrescentar à novela. Seria interessante um embate com Luana, tanto pela herança como pelo próprio amor de Bruno. Enfim, coisas que poderiam ter sido e não aconteceram.

O Rei do Gado é um novelão com cara de clássico, tem seus atrativos e acertos, mas já começava a mostrar características do que se transformaria a Teledramaturgia nas décadas seguintes: um emaranhado de ótimas histórias que não são contadas.

Por Walter de Azevedo

7 Quebraram tudo:

Ivan Marcio disse...

Bem legal seu texto Walter!

Guilherme Staush disse...

Também sou apaixonado pela primeira fase da novela. A impressão que tive é que eu estava vendo cinema pela primeira vez em uma novela. Aliás, sempre cito a primeira fase de O Rei do Gado como o melhor trabalho do Benedito na TV, se bem que a direção tem um mérito enorme ali.
Depoiis, confesso que deixei a novela de lado. Nao tenho paciência com o Benedito.
E concordo, Walter, é um novelão, clássico. Apesar de eu ter visto pouco, reconheço que a novela tem grandes méritos. Parabéns pelo ótimo texto!

Eddy disse...

Gostei bastante da análise.

Você foi muito coerente, Walter. Concordo contigo. O Rei do Gado é uma novela agradável de se assistir, muito bem escrita, mas essa segunda fase está morníssima.

Thiago Monteiro disse...

Essa novela tem uma das trilhas sonoras mais lindas que já existiu. E ainda tenho o cd lançado na época de sua exibição inédita.

Uma pena eu não ter esse Canal Viva.

Duh Secco disse...

Concordo em absoluto, Walter! Apesar de toda beleza e poesia da novela, O Rei do Gado é uma novela cujos grandes acontecimentos se restringiram a primeira fase. No texto não foi mencionado, mas a segunda fase ainda conta com o desaparecimento de Bruno, que torna a trama ainda mais cansativa. O mérito maior desta segunda fase se resumiu aos personagens secundários: a já citada Léa, o sem-terra vivido por Jackson Antunes, e o Senador Caxias em seu envolvimento com a luta dos sem-terra e no imbróglio amoroso com a empregada.

Uma observação: Rafaela, ao final, é revelada como sobrinha de Berdinazzi também. Ela não era filha do irmão dele que morreu na guerra (Marcelo Anthony)?

Fábio Leonardo disse...

Concordo. Assisti "O Rei do Gado" em sua exibição original e na reprise do VAPVDN. Como na primeira vez eu tinha 7 anos, e na segunda, acho, 9, a análise ficou comprometida. Mas é verdade que o estilo de Benedito é marcado por tal lentidão que, muitas vezes, prejudica a boa contagem da história.

Daniel Pepe disse...

Um dos motivos que me fez acompanhar a trama foi a volta de Glória Pires às novelas depois de 3 anos. Acredito que todos esperavam por uma boa personagem que seria a real antagonista da história. Mesmo com as paralelas conduzindo a história, como bem analisou o Walter, a novela nunca deixou de ter um ritmo lento e talvez a maior marca disso seja as incontáveis andanças de Luana pelos canaviais. Mesmo assim, gosto da novela.

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