quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Os Perigos da Licença Poética

Muito mais do que crítico, sou um apaixonado pelas telenovelas. Quem acompanha este espaço sabe que sou um dos fãs do formato e tenta acompanhar o maior número possível dessas produções - ainda que muitas de qualidade duvidosa - é o que eu chamo de prazer em reconhecer os meandros e detalhamento que somente as novelas permitem.

Um dos elementos técnicos de um folhetim é a licença-poética. Muito utilizada pelos autores, ela é delicada e sempre insurge em discussões polêmicas entre os próprios dramaturgos, a crítica e, por vezes, os telespectadores mais atentos e críticos. Licença-poética é a o fato de Nina (Avenida Brasil) sacar um milhão de reais do Banco e sair com uma sacola de dinheiro; licença-poética é todo personagem que cai de escada morrer (Fina Estampa); licença-poética é personagens de outros países falarem em português, como é o caso das últimas novelas de Glória Perez e aqui inclui-se Salve Jorge. Uma observação é importante: não confundir licença-poética de uma obra que se propõe em ser realista com uma trama que trata de realismo fantástico. Açucena ressuscitar com um beijo de seu amor Jesuíno, em Cordel Encantado, não é licença-poética, é realismo fantástico.

Diante disso, é preciso saber utilizar a licença-poética de forma que ela não perca a coerência ao longo de todo um folhetim. Quando o autor lança mão desta técnica, ele precisa ampliar seu campo de visão e compreender que, para fazer sentido, o elemento precisa ser utilizado de forma que o telespectador compreenda que se trata de uma saída dramatúrgica sem que se comprometa toda a estrutura narrativa de sua produção.

No capítulo natalino (!) de Salve Jorge ocorreu um desses deslizes imperdoáveis por conta da tal licença-poética. Desde que a novela estreou a autora Glória Perez usou o artifício de que todas as personagens turcas falem a Língua Portuguesa. O recurso é obviamente aceitável, pois num veículo de comunicação de massas, no horário de maior visibilidade da TV brasileiro, não se pode exigir que o telespectador raso acompanhe toda uma história com legendas. Porém, para que a licença-poética faça algum sentido, ela precisa fazer parte da estrutura narrativa e não apenas quando convém.

E no capítulo da última terça-feira (25) houve um ruído grave nesta licença-poética que é emprestada pela autora em praticamente todos os seus trabalhos. Em todos os lugares da Turquia de Salve Jorge as personagens fala português, inclusive numa das vilas mais tradicionais, como se viu durante a visita de Bianca (Cléo Pires) que se relacionou normalmente com todos ali sem problema algum de comunicação, é a licença-poética funcionando como deve. Porém, o mesmo não ocorreu na sequência em que se viu Jéssica (Carolina Dieckmann) na delegacia. A personagem fugindo da quadrilha de Lívia (Cláudia Raia) foi parar numa delegacia e, para espanto geral, nenhum policial entendia o que ela falava e ela não entendia nenhum dos presentes, apenas um, servindo de escape para a cena fazer sentido, é que falava nossa língua.

Este é o típico deslize que não pode acontecer. Ou a licença-poética utilizada é abordada de forma coerente ou nada mais faz sentido e o telespectador fica sem compreender. Está certo que toda a sequência foi uma saída para que a personagem fosse presa e, em seguida, voltasse para as mãos da quadrilha, mas esta foi uma saída rasa e simplista que acabou por comprometer todo o trabalho técnico que vinha sendo utilizado de forma coerente. Aparentemente, na Turquia de Glória Perez, apenas os policiais falam turco e não entendem português. Uma pena porque comprometeu um capítulo quase impecável.

domingo, 23 de dezembro de 2012

Pai Demlo Ataca: Novelas 2013

E o Pai Demlo está de volta (saravá, meu filho). Depois do sucesso estrondoso e da quantidade espantosa de acertos que este ser espiritual que vos fala obteve no final de 2011, decidi resgatar este "quadro" do blog para o fim de 2012. E 2013 promete muito em novidades para as telenovelas brasileiras, então Pai Demlo prevê:

Globo:

Flor do Caribe - 18 Horas

Walter Negrão está de volta e, ao que parece, disposto a retomar sucessos como Tropicaliente. Com elenco interessante, tendo Grazzi Massafera como protagonista, além de nomes como Henri Castelli, Dudu Azevedo, José Loretto e Débora Nascimento, a trama não parece ter força suficiente para reconquistar a audiência para o horário. A novela certamente não será ruim, pois o autor sabe fazer folhetins leves e interessantes para o horário, mas não será nada de extraordinário e não alcançará a meta de audiência.

O Pequeno Buda - 18 Horas

Duca Rachid e Thelma Guedes novamente no horário das 18 Horas. A dupla responsável pelo último grande sucesso do horário com Cordel Encantado retorna para enfrentar um horário delicado. Com previsão de estreia para o segundo semestre, a novela vai enfrentar o terror chamado horário de verão e certamente irá sofrer por isso. A tirar pelo talento que as autoras demonstraram ter, pela criatividade em envolver elementos de forma homogênea e pelo elenco parcial divulgado - Bruno Gagliasso, Mariana Xiemenes e Nathália Dill - a novela deve ir bem. Dificilmente repetirá o sucesso da trama anterior das autoras, mas a aposta é para um média que chegue bem perto da meta.

Sangue Bom - 19 Horas

O trabalho fino e minucioso de uma das melhores dramaturgas do Brasil dará o ar da graça em 2013. Depois de anos de ausência com um trabalho inédito, Maria Adelaide Amaral continua no horário das 19 Horas - depois do sucesso com o remake de Tititi - e agora com uma obra própria, dividindo a autoria com Vincent Villari. O talento da autora dispensa comentários, embora seja sua primeira novela inédita (de inédito, apenas minisséries), é possível afirmar sem medo de errar que o folhetim irá dar novo fôlego ao horário e se manterá na meta de audiência para o horário. 

Em Nome do Pai - 21 Horas

A primeira novela de Walcyr Carrasco no principal horário da teledramaturgia nacional é uma incognita. Dono das melhores audiência - comparando a meta à média geral - o autor chega ao horário com uma história que, ao que tudo indica, será muito polêmica e cheia de meandros. Com bom elenco, tendo nomes de peso como Antônio Fagundes e Ary Fontoura, além do primeiro vilão de Mateus Solano, a novela deve cair na boca do povo por conta das polêmicas que irá levantar. É bastante provável que Walcyr não decepcione nos números de audiência, mas também parece improvável que ele seja unânime entre os críticos. A novela chegará perto da meta, mas não será elogiada.

Saramandaia - 23 Horas

Apenas a terceira novela do novo horário estabelecido pela Globo. Após o sucesso de crítica de O Astro e a boa repercussão de Gabriela, chegou a vez deste remake pelas mão de Ricardo Linhares. A controversa obra, sucesso quando exibida pela primeira vez, não é uma trama para ter meio termo. Ou ela será um sucesso estrondoso ou um retumbante fracasso. Infelizmente, Pai Demlo não aposta no sucesso, ainda que a novela tenha nomes como Cláudia Jimenez e Fernanda Montenegro. Será o primeiro fracasso do horário.

Record

Dona Xepa - entre 06h00 e 00h00

Ninguém sabe qual o horário desta novela porque ninguém pode garantir qual a grade da Record sequer para amanhã, quanto mais para o ano que vem. Gustavo Reiz é o novelista responsável por inaugurar o que parece ser o segundo horário de telenovelas da emissora. Inaugurar porque trata-se de um horário reservado para novelas de pequeno porte, essa terá 90 capítulos. Com elenco constrangedor que reúne metade da turma dos Rebeldes, é certo que esta novela será o que há de mais vergonhoso para a teledramaturgia nacional em 2013. Sem audiência, sem repercussão e com cenas abaixo de qualquer crítica.

Novela de Carlos Lombardi - entre 18h00 e 00h30

Impossível prever também em qual horário entrará esta trama. Prevista para substituir Balacobaco que também já dançou no horário mais que bailarinos do Dança dos Famosos, a primeira novela de Carlos Lombardi fora da Globo deve estrear ainda no primeiro semestre de 2013. Pouco se sabe da história desta novela ou de seu elenco. Mas conhecendo o autor, é provável que encontremos uma trama recheada de humor e com situações tão bizarras que chegam a divertir. O grande problema será a direção, incapaz de captar a mensagem de um autor como Lombardi. Por isso, a aposta é em números fracassados de audiência.

SBT

Chiquititas - 20h30 se o Sílvio Santos deixar

Depois do astronômico sucesso com a versão brasileira de Carrossel, o SBT quer investir neste filão. Para tal, optou-se pelo remake de Chiquititas. Engana-se, porém, quem acredita que a estratégia seja equivocada, não é. O público de Carrossel estará envelhecido um ano e certamente Chiquititas é uma boa escolha, pois é uma trama um pouco menos infantil, além de dar a oportunidade das personagens crescerem junto com o público. Íris Abravanel será a responsável pelo roteiro, o que é um problema, pois a autora não terá descanso e manterá o enfoque no mesmo público, o que pode ser prejudicial. Ainda assim, Pai Demlo aposta que Chiquititas fará ainda mais sucesso que a atual novelinha.

sábado, 15 de dezembro de 2012

As Telenovelas são de atrizes?

Se tentarmos fazer uma reflexão sobre a arte de atuar e a indústria mercadológica que esta profissão criou, iremos perceber alguns elementos muito importantes, mesmo que num olhar abrangente para o mundo todo e não apenas no Brasil. Cada vez mais há uma clara tendência de se perceber destaques em atuação diferentes para cada área, o que pode se tornar um problema daqui há alguns anos e limitar bastante o campo de trabalho destes profissionais.

Está claro que no Cinema Mundial os grandes destaques são os atores. Por mais que hajam mulheres que fazem composição por vezes brilhantes - como Meryl Streep - é impossível tentar comparar o grau de destaque. As premiações cada vez mais deixam claro que o segundo prêmio mais importante - depois de melhor filme - é o de melhor ator. É como se a crítica de Cinema considerasse os homens peça fundamental na engrenagem para a produção de um bom filme.

O teatro, aparentemente mantém isso bem dividido. Seja no Brasil ou em qualquer parte do mundo, ainda há espaço para homens e mulheres. O grande problema, talvez, é que este tipo de arte segue a tendência do início do novo milênio e cada vez mais se torna um veículo para uma nata, uma elite intelectual que se dispõe a assistir uma peça.

Chegamos, finalmente, às telenovelas. Se no resto do mundo as produções há bastante tempo priorizam as atrizes - veja as novelas mexicanas - o Brasil parece ter adotado essa tendência com uma força incomparável. Antes, o país sempre acompanhava uma dupla muito forte, seja a mocinha e o mocinho ou o casal de vilões. Fato é que sempre havia personagens masculinos tão fortes quanto os femininos. Não mais.

No principal horário de telenovelas do país, às 21 Horas, percebe-se isso há algum tempo. A Favorita contou a história de duas mulheres, Caminho das Índias mostrou a dor de uma mulher perdida em meio a sua cultura, Viver a Vida acompanhou o drama de uma mulher que ficava paralítica, Passione apresentou uma vilã perversa em que tudo girava em torno dela, Insensato Coração levou ao público a história de uma mulher movida pelo ódio ao seu algoz, Fina Estampa conduziu a história de duas mulheres que se odiavam, Avenida Brasil contou a história de uma mocinha capaz de tudo por vingança e de uma vilã inescrupulosa e, agora, Salve Jorge apresenta uma mocinha enganada e traficada.

Óbvio que todas essas tramas tiveram mocinhos, tiveram vilões, mas sem a mesma força das personagens femininas. É um dado curioso notar que ano após ano em premiações as melhores atrizes se tornam a principal categoria, por vezes, mais festejadas que propriamente a categoria de melhor novela que, teoricamente, é a mais importante.

Atualmente as três novelas no ar fazem com que atrizes se destaquem. Lado a Lado é uma vitrine de boas atrizes, Patrícia Pilar, Camila Pitanga, Marjorie Estiano. Guerra dos Sexos apresenta uma Glória Pires inspirada, assim como Mariana Ximenes muito bem e um destaque positivo para Luana Piovani. E Salve Jorge, além da protagonista já citada, há o destaque para Totia Meireles, roubando a cena como vilã. 

E 2012 já foi o ano de uma atriz, Adriana Esteves foi endeusada como raras vezes se viu neste país por conta de sua composição brilhante como vilã. O último grande momento de um ator no Brasil, em que ele se tornou o principal nome de interpretação foi, provavelmente, com Paraíso Tropical, em que Wagner Moura deu show.

A tendência é de que as telenovelas se foquem cada vez mais em atrizes? No ano em que a Globo levou ao ar a novela Guerra dos Sexos, é possível afirmar que há uma espécie de guerra entre homens e mulheres e que elas estão levando vantagem para ganhar destaques no folhetim? Difícil afirmar que o futuro será assim, mas parece claro que este é a fotografia do presente.

domingo, 9 de dezembro de 2012

Roteiro atrapalha que Lívia seja, de fato, vilã

É visível, quase palpável, a significativa melhora de Salve Jorge nas últimas três semanas. Desde o momento em que o texto começou a preparar as situações para que o núcleo mais chamativo - o do tráfico de mulheres - se encontrasse com o núcleo principal, ao colocar Morena (Nanda Costa) como uma das traficadas, a novela entrou de vez nos eixos e, a cada capítulo, só melhora, mesmo nos outros núcleos que parecem melhor organizados.

Contudo, quem parece se manter fora dos eixos da linha narrativa do folhetim é a principal vilã da história, Lívia (Cláudia Raia). Uma enxurrada de críticas respingou na atriz desde a estreia, o que eu discordo. Cláudia vem bem no papel desde sua primeira cena, contudo, é preciso observar que o texto não colabora com ela desde o primeiro momento e, aparentemente, a situação só piora. Ao que parece, houve um erro de cálculo de Glória Perez, autora da obra, e também da direção no momento de criar as nuances de Lívia para que ela fosse tida como a grande vilã dessa obra.

Num primeiro momento, a chefe da quadrilha de tráfico de mulheres foi pintada da forma correta. Uma mulher que não suja as mãos, apenas comanda uma importante e internacional rede de tráfico de pessoas, mulheres para prostituição e venda de bebês. Porém, Lívia nunca foi colocada em situações que realmente a mostrassem com o poder que lhe cabia. Sempre circulando entre os ricos e bondosos da novela com frases de efeito para mostrar que ela é sem escrúpulos, a personagem mais falava do que fazia. Quando contracenava com Wanda (Totia Meirelles), ela se mostrava mais amiga do que chefe. Erro do texto, não da atriz.

Aparentemente - e é impossível afirmar com certeza sem ouvir a autora - percebeu-se que Lívia estava sendo deixada de lado por Wanda, a verdadeira vilã da novela até o momento - também graças ao brilhante trabalho de Totia - e essa semana algumas cenas diferentes começaram a ir ao ar. Se foi mudança no perfil do texto ou não, não importa, ocorre que a tentativa de corrigir um erro acabou criando outro, muito pior e que descaracteriza a personagem.

Cenas dessa semana mostraram Lívia indo buscar dois bebês, dirigindo por praticamente todo o Rio de Janeiro com esses bebês no carro, levando-os para seu quarto num importante hotel, passando a noite cuidando das crianças para, no fim, entregá-los aos pais adotivos que compraram as crianças traficadas. Toda a intenção dessa sequência foi claramente para mostrar o caráter vilanesco da personagem e fazer com que o público a odeie, tal qual odeia Wanda. Tiro no pé.

Lívia, como líder dessa Rede Internacional de Crimes, jamais poderia ser colocada em situações assim. Numa comparação estapafúrdia, seria como Fernandinho Beira Mar ir a um Morro qualquer, parar num beco e ficar vendendo drogas. Não funciona assim. O líder de uma Rede deste nível jamais se exporia a uma situação assim e tudo soou tão falso, tão mentiroso, que piorou a situação de Lívia junto ao público.

A personagem precisa urgentemente de uma identidade. Ela precisa ser tida como uma entidade superior, intocável e que comanda toda a Rede com mão de ferro. Para isso, é preciso que a autora crie situações de liderança, que obriguem Lívia a mostrar sua autoridade junto a seus funcionários. Uma das poucas cenas realmente convincentes da personagem, foi a ousadia de colocar uma câmera para saber tudo que ocorre no escritório de advocacia para descobrir se era investigada. São de situações assim que a vilã precisa para ser vista como a poderosa líder. Do contrário, ou ela fica descaracterizada ou a tendência é continuar à sombra de Wanda.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Salve Jorge encontra seu caminho. E promete!

Por mais que este que vos fala discorde da opinião geral de que a primeira fase de Salve Jorge tenha sido das piores coisas da TV, é inegável que houve uma rejeição gritante para com a novela. Quando se há rejeição, cria-se uma espécie de birra e, por mais que haja um esforço de produção para melhorar os rumos do produto, as críticas continuam ecoando ainda por um tempo, principalmente quando elas são amparadas por números constrangedores de audiência.

Mas, verdade seja dita, nas últimas duas semanas, o folhetim das 21 Horas deu um salto de qualidade e tanto. A trama não era péssima, mas mostrava-se bastante arrastada numa espécie de Prólogo da História que a autora pretendia contar - a primeira fase com a protagonista ainda no Brasil e vivendo um romance com o mocinho. Independente disso, nas duas últimas semanas, com a preparação do roteiro para a primeira virada, o texto claramente ganhou agilidade, mesmo com diversos núcleos tudo foi se amarrando de forma mais clara e, a sensação de confusão que pairava nos primeiros capítulos, deixou de existir.

O capítulo de ontem foi, certamente, o primeiro a ser elogiado de forma quase unânime - quase porque a birra ainda permanece - e com razão. De longe, foi o melhor capítulo de Salve Jorge desde a estreia, mas não foi um momento solto e que não causa sequer esperança para o público. A autora preparou muito bem este momento de clímax criando situações importantes e que foram chamando a atenção do telespectador ao longo das últimas semanas.

O roteiro da novela vem muito bem amarrado e construiu uma relação forte que certamente irá agregar agora que a saga de sofrimento de Morena (Nanda Costa) finalmente começou. Enxergar, contudo, apenas a protagonista sendo inserida na trama mais atraente desde o início - o tráfico de mulheres - é simplificar. Todos os núcleos da novela se encorparam e ganharam vida, passaram a fazer sentido no contexto da história contada pela autora.

Mas é preciso frisar que o público sempre abraçou melhor o núcleo do tráfico. Por isso, olhando para trás, percebe-se que o Prólogo pretendido por Glória Perez tenha sido, talvez, o grande equívoco da autora. Tal qual Insensato Coração demorou quase 100 capítulos para construir a personalidade sórdida de Norma (Glória Pires) em sua vingança contra Léo (Gabriel Braga Nunes), arrastando a trama, em Salve Jorge foi desnecessário tantos capítulos para introduzir Morena ao núcleo do tráfico. Toda a história de amor entre ela e Théo (Rodrigo Lombardi) poderia ser contada de outra forma e bem mais rapidamente. A introdução - que serviu para construir a personalidade das personagens - acabou se tornando maior que o necessário.

Independente disso, está claro que não tivemos um capítulo solto. A história engrenou e isso é inegável. O roteiro tornou-se atraente e permitiu com que o elenco se destaque, como foi o caso de Totia Meireles e Nanda Costa. As duas protagonizaram uma excelente sequência nos dois últimos capítulos, desde a partida do Brasil, até a briga, já na Turquia. Nanda Costa, aliás, vem construindo uma protagonista dificílima e mostrando estar pronta para este árduo trabalho. A atriz vem fazendo bonito em cena.

Fato é que Salve Jorge encontrou seu caminho. Com a chegada de Morena a Turquia, o sofrimento da mocinha está apenas começando e a introdução para a história que a novela realmente pretende contar acabou. É hora de puxar a cadeira e acompanhar esse enredo que está apenas começando. E promete. 

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Luciana By Night eleva o patamar da apresentadora

Desde que estreou na TV há anos, Luciana Gimenez se transformou numa figura controversa. Assumindo o Superpop, até então comandado pela competente Adriane Galisteu, a ex-modelo e ex de cantor famoso mudou o formato do show e o transformou numa sucessão de bizarrices, ganhando o título de um dos piores programas da TV brasileira.

Com erros de português e frases que acusavam uma total falta de conhecimento do mundo, a apresentadora ganhou fama por, digamos, sua capacidade em mostrar-se menos inteligente do que a maioria, sendo satirizada por diversos meios de Comunicação. Ganhou até o apelido carinhoso de Lucianta, dado pelo colunista da Folha José Simão.

Mas nada a abalou e ela continuou desenvolvendo seu trabalho. Na estreia do Luciana By Night na noite da última terça-feira, todos - público e crítica - tiveram de assistir pasmados quem é verdadeiramente a apresentadora Luciana Gimenez. Dona de um carisma inconfundível e com uma capacidade de improviso bastante interessante, a apresentadora mostrou-se bastante confortável a frente deste formato, ao menos na estreia.

É bem verdade que não se pode fazer uma análise profunda de um talk show desse molde apenas pela estreia, principalmente se levarmos em consideração que, na Rede TV!, não há um programa que, no fim das contas, não exagere no estilo popularesco e ataque para o caminho do bizarro. Por este primeiro programa, contudo, não é o que parece.

Luciana Gimenez ficou absolutamente a vontade, mesmo nos momentos de improviso, como no stand up dos primeiros minutos. Durante a entrevista - aliás, um acerto levar Ana Hickmann, mostrando que o nível do programa é bem diferente do Superpop - ela mostrou-se segura, embora não tenha se aprofundado muito em nenhum tema importante.

A impressão que se deu foi que a apresentadora estava literalmente em sua casa recebendo amigos para uma pequena festa, não tão formal, mas longe da informalidade também. Luciana By Night serviu, nesta estreia, para mostrar que Luciana Gimenez tem talento nato e estava mal aproveitada, com o formato de um talk show de verdade, ela tem muito a crescer. Quando estiver mais segura e puder desenvolver melhor as entrevistas, é possível que ela possa tratar de temas ainda mais profundos, mas no momento, o que se viu, foi bastante elogiável.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

A Qualidade Técnica em detrimento do Roteiro

Novo milênio e novas descobertos técnicas para a arte. É assim que convivemos diariamente. A cada dia surgem novas perspectivas técnicas que visam dar um apuramento melhor nos mais variados tipos de arte existentes. Essa máxima de se preocupar com os detalhes e proporcionar o filé no campo técnico acaba por formular uma questão importante: a técnica ou o conteúdo? Sob o ponto de vista do público-alvo, qual das duas é a mais importante?

Vivemos dois paralelos importante ao tratar deste assunto. No campo da Literatura podemos destacar as obras de Paulo Coelho, escritor brasileiro mais bem sucedido no mundo atualmente. Como característica principal, ele não aceita que seus livros passem por revisão linguística. Segundo sua concepção, o texto quando finalizado pelo autor, deve ser publicado daquela forma para que não perca a magia do momento em que quem escrevia refletia. É uma opção que precisa ser respeitada, ainda que muitos discordem.

Na TV há um exemplo parecido. O SBT leva ao ar as últimas semanas da novela mexicana Maria Mercedes. Quando decidiu colocá-la em exibição, satisfeito com os números conquistados pelas outras duas tramas de Thalia, a emissora levantou uma questão que virou tema de debate. A primeira das Marias de Thalia foi gravada em meados da década de 90 e sua qualidade técnica estava bem abaixo das outras duas, e olha que todas elas já estão abaixo do que se vê atualmente na TV.

É evidente que tanto Paulo Coelho e seus livros quanto o SBT com a exibição de Maria Mercedes não chegam a entregar a seus públicos algo com erros crassos. A imagem da novela não é falha e não chega a incomodar a ponto de atrapalhar quem assiste para acompanhar a saga da protagonista. Mas é, indubitavelmente, abaixo do que se vê atualmente e do que o telespectador vem se acostumando.

É preciso compreender um pouco a dinâmica das produções para tentar analisar a questão. Os filmes hollywoodianos contam com um produtor-executivo, tal qual as séries de TV daquele país. Estes produtores são os responsáveis pelo todo do produto: escolha de elenco, cachês, patrocinadores, até questões técnicas, como escolha do diretor e estilo de fotografia, cenas, acústicas, externas. O produtor-executivo nem sempre é o roteirista da obra, é importante frisar.

No Brasil, a Rede Globo utiliza a figura deste produtor em sua grade. Trata-se do diretor de núcleo. Para as telenovelas, o diretor de núcleo não é o responsável direto por dirigir as cenas, mas é ele quem produz a obra. Ele é a voz da emissora para dar vazão ao produto. Com um papel um pouco diferente, pois não decide cachê, mas dá a palavra final na escalação do elenco, entre outras coisas.

A direção de núcleo avançou muito na Rede Globo e tornou-se responsável por um apuro técnico tão grande na teledramaturgia que, às vezes, chega a assustar. Veja o caso de Cordel Encantado, uma obra perfeita tecnicamente, com um novo estilo de uso de câmeras, fotografia impecável, figurinos dignos de nota, áudio e vídeos excelentes. Isto tornou-se parte do padrão Globo de Qualidade, tanto que este apuro técnico levou Araguaia a concorrer ao Emmy Internacional no ano passado, ainda que a novela não tenha sido, nem de longe, o grande destaque daquele ano na TV brasileira.

Atualmente vê-se essa preocupação técnica em Lado a Lado e também em Salve Jorge. Ambas as novelas são tecnicamente perfeitas, mas pecam quando o assunto é roteiro. E isso levanta a questão tratada no começo deste texto. São muitos os exemplos de obras tecnicamente perfeitas, mas que pecam no texto. Além das duas novelas já citadas, podemos lembrar de Avatar, filme de James Cameron que contou com diversas inovações tecnológicas, mas que acabou contando uma história aquém de todo o trabalho enquanto produção.

Num país como o Brasil, será que a preocupação técnica deve ser mais importante que o roteiro? É preciso lembrar que o diretor de núcleo não é o autor da novela e, aparentemente, tem menos liberdade sobre o roteiro do que um produtor-executivo americano. Mas é preciso que a emissora analise isso: não está na hora do roteiro ter o mesmo tipo de preocupação por parte de quem produz que a fotografia, os cenários e os figurinos estão recebendo? Vale a pena produzir uma obra plasticamente tão linda, mas com um texto tão pobre? Se tivesse que escolher entre uma novela linda visualmente, com texto fraco e com grande texto, mas tecnicamente apenas correta, o que o telespectador preferiria? É de se refletir.

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